domingo, setembro 21, 2014

A Liberdade das cores e os cheiros dos meus Campos



Em conversa no outro dia com amigas foram recordados e partilhados momentos em que na nossa adolescência tínhamos destinados e designados de pura libertação. Senti uma enorme nostalgia nesse momento. 
Tenho saudades da minha terra. Consigo estar até um mês sem lá ir mas morro de saudades. Infinitas saudades.
Não há cheiro como o dos meus campos. O cheiro dos malmequeres que florescem na primavera, o cheiro das colheitas de feno no Verão, o cheiro das folhas caídas e o maravilhoso cheiro a campo e terra molhada nos Invernos dolorosos. Tenho saudades imensas de ir com a minha mãe de bicicleta na hora que o sol se põe, para o campo, para aquele sítio só nosso e sentarmo-nos ou deitarmo-nos a contemplar aquela imensidão toda. Sim, era de facto uma criança, e era tão bom ser assim. Não tinha preocupações, mas já carregava a sensação de que aquele era o melhor momento de sempre. O alivio de todas as sensações, a melhor das contemplações. 
Lembro-me de fazermos as estradas em caminhos secundários, onde à nossa volta só há campo e de vidros abertos soltarmos um grito prolongado que se perdia pelo horizonte que não tinha fim. 
Lembro-te tão bem das cores do céu, do barulho que as rodas da bicicleta faziam com a velocidade do vento que as atravessava. Do cheiro que o campo transpirava em cada passo que eu dava e o afundar perfeito naqueles campos em plena Primavera. 
Lembro-me dos piqueniques com os amigos, das cantigas ao ouvidos dos passarinhos mais amigos. Das corridas de braços estendidos e rosto virado para o céu "Não vejoo, ahhhhhhhhhhhhhhhhh". O sabor do vento a escorrer todo o rosto e a prolongar-se pelos cabelos. A velocidade dos vários tons de azul no céu. 
Lembro-me também das noites de céu estrelados. Das propriedades privadas invadidas. Dos carros, a dois, em que nos perdíamos entre beijos e abraços num céu imenso estrelado e tão claro. Da capela abandonada assustadora e tão bonita naquele mundo tão nosso.
Era demasiado libertador. Demasiado perfeito.
E tenho saudades. Tenho imensas saudades deste tamanho alívio de me ser e de me estar em casa.

sexta-feira, julho 18, 2014

O inimigo de "O Homem Duplicado"


Para fãs incondicionais daquele que o nosso país não soube abraçar verdadeiramente, José Saramgo, não vejam o filme Enemy baseado na obra “O Homem Duplicado”. A única coisa que posso concretizar que o filme respeita relativamente ao livro é o lado obscuro da destruição humana que o livro aborda ( através de uma fotografia de ambientes cinzentos e uma banda sonos tenebrosa e arrepiante). Acho a analogia da “Tarântola” completamente despropositada e sem nexo, sobretudo confusa para quem possa não estar contextualizada com o lado teórico da coisa. É um filme denso e díficil desde a sua banda sonora à amostra do nível de monotonias de que muitas vidas são feitas, poderá ser considerado uma “valente seca” para intelectuais menores. Não gosto quando os filmes alteram os personagens que nós já conhecemos. Gosto ainda menos quando alteram todo o rumo da história, todo os momentos, e sobretudo quando tornam o “meu” Saramago banal e inacabado. O filme termina a meio da trama do livro deixando a sensação de “WTF???” Inadmissível e completamente transtornante. Não gostei, não tornarei a ver e não aconselho nem a que leu o livro nem a quem não leu. O final do filme destrói tudo aquilo que o decorrer da trama deixou de aliciante ao espectador. Não vejam meus caros. Para quem não leu o livro, guardem o tempo que dedicariam ao filme, e leia-no. Para que não leu e não quer ler, vejam a telenovela SIC que ficam melhor servidos. Tenho dito.

quarta-feira, junho 04, 2014

Mundo de Plástico


 O rídiculo está por toda a parte. É tremendamente espantoso. Posso dizer que me começa a agoniar tanta gente rídicula à minha volta. Serei eu a mais rídicula que não consigo encaixar-me neste mundo de "plástico"?
Já ninguém disfruta verdadeiramente de nada. O vírus espalhou-se por todo o lado e está a lotar as redes sociais. As pessoas tornaram-se de plástico, ridiculamente rídiculas.
As pessoas caiem nos sítios da modam e agarram-nos como se não houvesse mais nada. Usam todas os mesmo sapatos. E usam todas as mesmas cores e os mesmo modelos. Usam os cabelos da mesma forma e, pior, julgam-se sempre melhor ainda sendo iguais. Marcam lugar, marcam posição, como se de uma propriedade se tratasse. Sim, propriedade. É isso. As pessoas acham-se propriedades umas das outras. Andam em manadas e não admitem intrusos ou desvios de rumos. Na verdade, não se sabem aceitar umas às outras se não forem todas iguais. Virem os mesmo filmes, ouvirem as mesmas músicas. Cheiram todas ao mesmo. Cheiram a demais. A abuso. A cansaço. A tédio. São tremendamente boring.
Mas ainda o que me espanta mais são as pessoas que um dia foram inteligentes. Um dia. Que um dia tiveram uma postura e uma personalidade própria e hoje transformaram-se em algo que um dia mais tarde já apenas identificarão nos outros: eu sou como eles. Perdem-se delas próprias.
É rídiculo. É triste. É acima de tudo degradante ter de conviver com tanta parvoeira.

Podemos todos voltar a ser de carne e osso e sair da montra?
Vá lá... deixemos o plástico... nem que seja só por umas horas.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

O Adeus sem despedida.

 
 
Não consigo despedir-me de ti carequinha. Nunca consegui dizer-te Adeus. Foi sempre uma despedida de sorriso aberto à espera de um novo reencontro e de mais sorrisos.
Tenho-me lembrado tanto de tanta coisa. Ainda há três dias estava a ver-te pela última vez ali, tão sereno, com um ar tão meio (como sempre foste) e não consigo deixar de lembrar tanta coisa que vivemos.
Lembras-te q esperavas por mim todas as semanas depois das aulas para irmos a Portalegre às compras? Não esperas por mim para te ajudar. Esperavas porque sabias que eu queria ir no carro e gritava sempre "vô, abre o tejadilho, abre, abre!!!". Tu sorrias mas alertavas sempre.
Foste o meu professor de patinagem, como eu gostava de te chamar. Calçavas os teus patins e eu equipava-me toda, com o vestido e iamos andar horas no ringue.
Foste tu que me ensinaste a amar os animais.
Eras tu quem ia filmar a Chuva de Estrelas na Festa de Natal da Escola, os teatrinhos da Festa da Páscoa. Lembras-te? Ficavas tão feliz de estar ali. E eu tão orgulhosa e vaidosa: "Está ali o meu avô!"
Lembras-te de mesmo já para o fim não conseguirmos largar as nossas alcunhas? O patxitxinho e a patxitxinha. Lembraste-te sempre isso meu carequinha. Até ao fim.
Fazias os trabalhos de casa comigo e iamos sempre juntos ver as notas assim que saiam e depois corriamos para o café para me presenteares com uma qualquer guloseima.
Eu era tão traquina e tu ajudavas tanto. eheheh Lembras-te de eu levar as meninas lá para casa e fazer tardes de dança? A mesma cassete que passava os mesmo videoclips e nós não nos cansávamos de repetir e rever e cantar e dançar tantas e todas as vezes. Tu ficavas sossegadinho na tua casinha dos bonequinhos a talhar as tuas madeiras e a fazer a tua arte.
Armavas as surpresas com elas meu safado! :) Encobrias as minhas traquinices da mãe e quando o pai não me fazia as vontades, tu ias escondido e tornavas tudo realidade.
E as festinhas que me fazias nos cabelos até eu adormecer? Penteavas com os dedos... até não haver mais fio de cabelo por pentear.. até te doerem os braços de estares na mesma posição, e mesmo assim dizias que não doía, só por saberes que me deixava tranquila. Faziamos à vez com a mãe, lembras-te?
Eu sei que te lembras de tudo. Sempre. Que nunca esqueces.
E eu nunca esquecerei. Nunca esqueceremos todos.
Porque tu não foste só um avô, um grande avô, tu foste um pai (e mãe), tu foste amigo da família dos amigos. Tu fizeste a nossa terra crescer. Deste-lhe lares, deste-lhe vida, deste-lhe o teu amor. Deste-lhe tudo o que Deus te deu a ti. O teu amor e a tua arte.
E a mim deste-me tudo o que sou hoje. Tudo.
 
Não me quero despedir de ti patxitxinho. Não consigo. Estás sempre aqui pertinho de mim. É só fechar os olhos e vejo-te, vejo-nos. Aos dois, aos três, a todos. Vejo-te sempre de braços abertos e a sorrir para mim e sei que essa imagem dar-me-á hoje e todos os dias a paz necessária, e a mais pura e verdadeira das certezas:
 
Tive na minha vida, ao meu lado, a melhor pessoa do mundo.
 
O teu coração estará sempre comigo. E a tua alma a encher a minha.
Ontem, hoje e todos os dias. Eu em ti. Tu em mim.
 
Descansa em paz e guarda-me lá de cima, está bem patxitxinho? Eu por cá prometo que não me esqueço. Nunca.

domingo, janeiro 26, 2014

Como é que se esquece alguém que nos mentiu?

 
Como é que se esquece alguém que nos mentiu? Da mesma forma que se esquece alguém que se amou: não se esquece.
A mentira sendo uma divergência de um sentimento como o Amor tem tanto impacto na nossa vida como uma grande paixão. A mentira fere-nos o peito. É um apunhalar de todo o nosso ser, deixa-nos amputados perante qualquer verdade que possa ainda sobreviver à tragédia de uma grande mentira.
Não é fácil compreender uma mentira. Mais dificil ainda é aceitá-la como sendo a verdade. Aceitar que tudo aquilo que era a nossa verdade é que passou a ser a mentira.
A mentira é confusa, é inaceitável. É cheia de porquês. A mentira é uma tremenda desilusão.
 
Não se esquece alguém que nos mente. É preciso primeiro condenar a pessoa por ter mentido. Fazê-la sentir-se um caco, uma mentira como aquela que criou. É preciso ficar com raiva, irritado, com vontade de esbofetear a pessoa até ela implorar por perdão. É preciso sentir vontade de não querer ver mais essa pessoa. Matá-la dentro de nós. Achar que é a pior pessoa do mundo. É preciso desejar-se a distância. A distância da mentira que era a nossa verdade.
 
 
É preciso criar novas verdades. Procurar novos sorrisos, novos olhares. Procurar novos "qualquer coisa" em tudo aquilo que já tinhamos ao nosso lado. Ver todo um mundo de uma forma [re]inventada.
 
É preciso ir às trevas e voltar para se ter de volta alguma tranquilidade e sobretudo dignidade.
Como é que se esquece alguém que nos mentiu?
Não se esquece. Perdoa-se e volta-se a acreditar.

domingo, janeiro 05, 2014

2014, mais 365 dias de mais ou menos as mesmas coisas.

 
 
E chegou mais um ano, mais 365 dias de mais ou menos as mesmas coisas. Sim, eu não acredito de todo no tão aclamado cliché "Ano Novo, Vida Nova". A vida nunca é nova. É renovada, é reciclada, é proclamada. 2013 foi um pouco daquilo que 2012 tinha sido e roçou perto do que 2011 trouxe. Há sempre mais ou menos as mesmas coisas em dimensões diferentes. Mas todos os anos, todos os 365 dias temos mais do mesmo. Os dias de escola, os dias de trabalho. Os dias de energia. Os dias de cansaço. Alegrias extasiantes. Desilusões profundas. Amarguras. Felicidade. Gargalhadas energéticas. Lágrimas. Mãos dadas. Abraços rasgados. Olhares distantes. Aqueceres de alma. Corações cheios. Brincadeiras. Notícias. Programas estupidificantes. Passeios. Em cada ano há qualquer coisa nova é um facto.
 
Posso dizer que 2013 foi talvez um pouco mais repleto em novidades que 2012. Fiquei desempregada, voltei a estar empregada. Uma estreia na minha vida, é um facto. Mas não a tornou uma vida nova, só um pouco diferente. Conheci pessoas novas de quem gosto muito. Conheci pessoas que não suportei ou suporto. Reconstrui relações. Quebrei laços. Renovei laços. Perdi-me. Encontrei-me. (Re)apaixonei-me. Desiludi-me. Mas também fiz isto tudo nos outros anos.
 
2014 é mais um ano. Mais um ano para mim, para ti, para nós todos. Contando que seja mais um ano que passo junto dos que mais amo não me importo que não seja uma "vida nova". Não quero uma vida nova. Quero esta. Com (des)amores, com a melhor família e os melhores amigos do mundo. Tenho as minhas raízes, as minhas origens, os meus apegos. Tenho esta sensibilidade malandra que tanto sofrimento me causa mas que me permite viver tão intensamente cada momento feliz. Se quero coisas novas? Claro que quero. Mas até mesmo esse querer não é novidade. Quero mais de tudo aquilo que já tenho entregue a mim numa ambição saudável desmedida. Quero dançar nos braços de quem amo e gargalhar intensamente. Quero chorar porque estou triste. Quero chorar porque estou aliviada. Quero chorar porque estou alegre. Quero sentir. Quero adrenalina. Quero desafios. Quero objectivos.
2014 não quero uma vida nova ok?
Dá-me mais um pouco desta. Mais daquilo e menos do outro. Da-me mais 365 dias de tudo aquilo que é tão meu e de tudo o que ainda será.