segunda-feira, março 25, 2013

Sempre que te dou a mão.



Toquei à porta que estava entreaberta apenas presa pela corrente de trinco. Pensei de imediato "Meu Deus, com o frio que está..." Estavam os dois sentados à braseira como de costume na sala, com a TV ligada no canal de sempre, porque já não acertam com o comando (muito menos com a chegada do TDT) e a perderem o olhar no vazio de qualquer canto da sala. Olhei para ti com atenção. Estavas tão descuidado avô. A barba por fazer e o cabelo já grande. "Então essa barba avô, não se faz?" Tentei que visses que tens de fazer alguma coisa quanto a isso mas apenas conseguiste contar-me mais uma vez aquela história de uma queda grande que deste e esfolaste o joelho. E contaste como se fosse a primeira vez. Como se não me tivesses contado ontem e anteontem. E eu ouvi e fiz-me de surpreendida, porque não consegui pela décima vez repetir-te que já me tinhas contado isso, ou sequer relembrar-te de que isso não foi ontem, mas há umas três semanas.
Fiz-te muitas festinhas no rosto. Estás tão magrinho, não andas a comer bem com certeza. Ou pior, esqueces-te de comer. E tento pensar e aceitar a ideia de que infelizmente estás assim no final da tua vida. E que infelizmente a grande maioria dos velhinhos agora ficam assim. Mas aperto a tua mão e fecho o olhos como se quisesse que o tempo voltasse para trás.
Porque queria entrar no Crato e ver-te a dar passeio pelo Rossio a cumprimentar toda a gente com o maior sorriso. Buzinar te e fazer-te adeus! Queria ir de bicicleta ter contigo ao atelier e pedir-te um pouco de papel vegetal para brincar a fingir que também desenhava casas. Queria chegar a casa e andar de patins por todo o lado e tu seres o único que não me ralhava. Queria ir contigo a Portalegre às compras no Mercedes e ir o caminho todo com o tejadilho aberto e com a cabeça de fora. Queria conhecesses as minhas amigas quando as vês na rua e que lhes falasses de mim. Queria ainda estar aí contigo e estudar nessa escola em frente a casa. Queria passar os serões contigo a ver um filme, ou a fazer os trabalhos de casa, enquanto tu de bata azul escura fazias os teus bonecos a pouco e pouco e me dizias: "Vês? Agora é só cortar aqui e faço já este braço."
Mas ainda és teimoso avô, e resolvi então dar-te razão sempre agora. Porque sofro ao saber-te assim. Tão sem rumo, tão oco. E ainda és gentil e sorridente e tão mas tão bonzinho. Ainda continuas bem disposto, mesmo que a queixares-te de qualquer dor em qualquer parte. Aí ainda és tu. 
E sempre que te dou a mão fecho os olhos, e imagina-me ali contigo. Eu pequenina, e tu ainda tão activo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Waw... Maria,que frases lindas pra um Sr q bem as merece com certeza!!

Anónimo disse...

Frases lindas é dizer pouco, está esplêndido, muito bom mesmo...highly emotional.

Anonymous =)