quarta-feira, março 27, 2013

Dia Mundial do Teatro

E no dia Mundial do Teatro, tinha de me lembrar de vocês meus queridos!
Saudades nossas, vossas e do palco :)



segunda-feira, março 25, 2013

That´s what it is [8]


Sempre que te dou a mão.



Toquei à porta que estava entreaberta apenas presa pela corrente de trinco. Pensei de imediato "Meu Deus, com o frio que está..." Estavam os dois sentados à braseira como de costume na sala, com a TV ligada no canal de sempre, porque já não acertam com o comando (muito menos com a chegada do TDT) e a perderem o olhar no vazio de qualquer canto da sala. Olhei para ti com atenção. Estavas tão descuidado avô. A barba por fazer e o cabelo já grande. "Então essa barba avô, não se faz?" Tentei que visses que tens de fazer alguma coisa quanto a isso mas apenas conseguiste contar-me mais uma vez aquela história de uma queda grande que deste e esfolaste o joelho. E contaste como se fosse a primeira vez. Como se não me tivesses contado ontem e anteontem. E eu ouvi e fiz-me de surpreendida, porque não consegui pela décima vez repetir-te que já me tinhas contado isso, ou sequer relembrar-te de que isso não foi ontem, mas há umas três semanas.
Fiz-te muitas festinhas no rosto. Estás tão magrinho, não andas a comer bem com certeza. Ou pior, esqueces-te de comer. E tento pensar e aceitar a ideia de que infelizmente estás assim no final da tua vida. E que infelizmente a grande maioria dos velhinhos agora ficam assim. Mas aperto a tua mão e fecho o olhos como se quisesse que o tempo voltasse para trás.
Porque queria entrar no Crato e ver-te a dar passeio pelo Rossio a cumprimentar toda a gente com o maior sorriso. Buzinar te e fazer-te adeus! Queria ir de bicicleta ter contigo ao atelier e pedir-te um pouco de papel vegetal para brincar a fingir que também desenhava casas. Queria chegar a casa e andar de patins por todo o lado e tu seres o único que não me ralhava. Queria ir contigo a Portalegre às compras no Mercedes e ir o caminho todo com o tejadilho aberto e com a cabeça de fora. Queria conhecesses as minhas amigas quando as vês na rua e que lhes falasses de mim. Queria ainda estar aí contigo e estudar nessa escola em frente a casa. Queria passar os serões contigo a ver um filme, ou a fazer os trabalhos de casa, enquanto tu de bata azul escura fazias os teus bonecos a pouco e pouco e me dizias: "Vês? Agora é só cortar aqui e faço já este braço."
Mas ainda és teimoso avô, e resolvi então dar-te razão sempre agora. Porque sofro ao saber-te assim. Tão sem rumo, tão oco. E ainda és gentil e sorridente e tão mas tão bonzinho. Ainda continuas bem disposto, mesmo que a queixares-te de qualquer dor em qualquer parte. Aí ainda és tu. 
E sempre que te dou a mão fecho os olhos, e imagina-me ali contigo. Eu pequenina, e tu ainda tão activo.

terça-feira, março 19, 2013

Dia do Pai.

Sabes Pai, hoje é o teu dia. Mas não é só hoje. É hoje, amanhã, depois de amanhã. Ah, e foi ontem, e na semana passada, e há 15 dias. Sabes,  já é o teu dia há pouco mais de 26 anos. E sabes o melhor? Vai continuar a ser. =)
E ao ser o teu Dia, é um dia de magia para mim, porque revejo em mim tudo aquilo de mais bonito e puro tens em ti. A tua garra, a tua sinceridade, a tua força.
Sou um ser pequenino que cresceu todos os dias porque sempre me deste a mão.

Serás sempre o papi da tua piolhita :)

Adoro-te! Feliz dia do Pai!


After seeing this...

...I´m speechless.

domingo, março 17, 2013

É urgente ser-se eremita.


Há momentos em que temos de saber apreciar a grandiosidade de momentos só nossos. É demasiado urgente e necessário saber-se ser eremita. As pessoas andam demasiado distraídas com a roupa, os sapatos, o trabalho árduo, os jantares, os convívios, e esquecem-se de quem são, tantas vezes.
É urgente parar. Estar só. E só estar. Ficar assim quase que como se o mundo lá fora fosse qualquer coisa completamente desnecessária à sobrevivência. Parar. Pensar. Não repensar. Deixar apenas algumas ideias passarem pela cabeça. Pensar no que nos faz feliz. Pensar no que realmente vale a pena e no que está perto e sempre lá para nós. Parar.
É urgente parar. Ler um livro talvez. Ler atentamente. Deixar fluir aquele dom de se entusiasmar com uma história que não a da nossa vida, do nosso dia-a-dia. Ler a primeira sílaba e saber o que vem a seguir. Relaxar. Ler a sorrir ou a chorar. Parar.
É urgente parar. Sentar. Beber um copo de vinho e ouvir uma boa música. Saborear o vinho e escutar a letra da música com atenção. Cada palavra. Enrolar a mente na música, na letra, na melodia. Parar.
É urgente parar. Estar assim só. Só em nós próprios. Só num sábado à noite. Só num domingo deprimente e chuvoso que pede uma companhia urgente para animar o término de mais um fim de semana. Só num dia de sol que pede um dia de praia na companhia de um grupo enorme. Parar.
É urgente parar.
É urgente olhar o mundo através de nós e não sob o olhar dos outros. É urgente o dom da partilha de algo que apenas fica connosco, só para nós. É urgente saber que continuamos a ser nós, e gostar disso. Parar.

É urgente saber que o mundo lá fora nos pode dar a mão.
Mas ainda assim termos o conhecimento que é urgente, é urgente por vezes ser-se eremita.

terça-feira, março 12, 2013

Livros de cabeceira [1]

No mais fundo de ti, 

eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal... 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

"Poema à mãe", Eugénio de Andrade.

Hoje foi o livro que saiu da estante e me caiu nas mãos durante o final da tarde. O grande Eugénio.
Para a minha mãe. Sinto a tua falta aqui perto de mim, todos os dias!

sexta-feira, março 08, 2013

No ouvido [5]

E esta semana tem sido assim:


"I'm walkin' back down this mountain, with the strength of a turnin' tide

Oh the winds so soft on my skin, the sun so hard upon my side.
Oh lookin' out at this happiness, I search for between the sheets.
Oh feelin' blind and realize, all I was searchin' for was me.
Ooo all I was searchin' for was me.
Keep your head up, keep your heart strong.
No, no, no, no.
Keep your mind set, keep your hair long."



Ainda te amo.


- Ainda te amo.

Foram as última palavras que ele lhe disse ao telefone, antes de ela desligar.
Ficou remexida com o assunto, mas calmamente desligou o telemóvel, sentou-se na cama, vestiu o pijama e deitou-se na esperança que o sono chegasse depressa. Ligou a tv com o temporizador, diminuiu drasticamente o volume e ficou ali a espera que o sono tomasse conta dela. Acabara por adormecer nem sabe ao certo quanto tempo depois. 
Sete da manhã, o despertador tocava como sempre. Levantou-se, tomou banho, vestiu-se e tomou o pequeno almoço. Saiu de casa e entrou no carro e ligou os telemóveis, como sempre. Tinha uma mensagem de um número desconhecido. "Ainda te amo." Estranhou, mas não entranhou tal coisa e seguiu o seu rumo, caminho ao local de trabalho, como habitual. Trabalhou o dia inteiro de forma stressante, dead lines a estoirar, um frenesim imenso a inundar-lhe as horas que iam passando depressa demais.
Oito horas da noite e estava novamente a entrar no carro de regresso a casa. Cai outra mensagem no telemóvel  desta vez com número conhecido: "Vem ter a Sintra. É urgente."
Entendera de imediato onde seria para ir ter. Sentira um aperto profundo na garganta que a sufocava e uma dor gigante no peito. Seguiu o mais rápido que pôde até ao destino a que o seu coração a levava. Lá estavam já duas pessoas à sua espera. Empurrou a porta e entrou. Sangue. Havia muito sangue.
Era a mão dele. O braço dele, o corpo dele, o rosto dele.
Era ele, o seu amor, ali. E ela não tinha tido oportunidade de lhe dizer também:

- Ainda te amo.