domingo, janeiro 29, 2012

Abraça-me

E eis que no intervalo do estudo, respeitando a promessa de de retomar hábitos de leitura, peguei no livro de cabeceira e li um bocadinho do Joaquim Pessoa, que é um tão grande bocadinho de mim já.


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa

domingo, janeiro 22, 2012

Sem filtro - O primeiro Adeus.

Sentara-se após um domingo solarento.
Resolvera que estava na hora de começar a despedir-se. A largar pouco a pouco o que tinha de largar, e deixar ir.
Enquanto abria um bloco e retirava uma folha para escrever a primeira carta de despedida recordava-se do que a J. lhe dissera: - Tu não tens filtro. És como eu. As coisas entram e vão-nos directas ao coração. Quando damos por nós não há como voltar atrás. Não temos filtro, ponto final.
E era verdade. Era tão verdade que a assustava.
Decidira então começar a filtrar e para isso decidira começar a despedir-se dele, da forma romântica que os uniu durante meses.
Resolveu escrever, talvez porque escritas as palavras poderiam ganhar mais força.
E escrevera:

" Hoje é o primeiro dia em que deixo um bocadinho de ti, finalmente, ir embora. Mas atenção, não é um bocadinho qualquer.

Hoje digo adeus a todas as vezes que me chamaste amor e que me disseste "Eu amo-te".
Hoje digo adeus a todas as vezes que me pediste para não te deixar ir embora, a todas as vezes que me pediste paciência, a todas as vezes que me pediste tempo, e a todas as vezes que disseste que ias ficar comigo para sempre.
Hoje digo adeus a todas as vezes que me disseste que comigo tinhas voltado a conhecer a felicidade.

Por hoje é tudo.."

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Resoluções Ano Novo [1]

"O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão."

Cem anos de Solidão, Gabriel García Márquez



1º Resolução do Ano Novo:

Ser livre e retomar hábitos de leitura, só porque sim.





terça-feira, janeiro 10, 2012

O conforto do tempo



A menina acreditava no tempo. No efeito que o mesmo tinha sobre a sua vida, sobre o amadurecimento das relações, dos acontecimentos, dos sentimentos. O mesmo tempo que ela conhecia havia-lhe ensinado que há tempo para tudo: um tempo para acreditar, um tempo para viver (acreditando) e um tempo para ficar, ou desistir.
Para qualquer tempo seria necessário conhecer, entranhar e deixar-se ir.
Deixou-se ca[ir] no seu abraço e disse-lhe ao ouvido:
"Eu não sabia a força que tinha, mas tens razão, a única alternativa agora é ser forte."
Ele beijou-lhe a testa e deixou que repousasse junto si.
Ela fechou os olhos, apertou-o com força e pediu-lhe para ficar.
Ele ficou, todo o tempo. O tempo que ela quis.

domingo, janeiro 01, 2012