domingo, dezembro 19, 2010

Deixar-se ir, jamais!

Todos os dias havia algo para deixar ir. E todos os dias ele não conseguia. Necessitava de uma rotina estupidamente feliz (ou nem por isso) para poder levar a sua vidinha simples e patética , como todas as vidas. Mas era feliz. Sentia-se feliz assim.
Em todos os lugares havia algo para deixar. Um suspiro, um olhar, um papel embrulhado. Ele tinha sempre dificuldade em largar. Em deixar acontecer, em deixar ir.

Tinha-se convencido que assim tinha de ser e que era a postura mais correcta a manter. Ser assim, agir de acordo com o que deveria ser o correcto. Ele era assim e gostava-se assim. Egocêntrico, firme, e sobretudo tinha todas as certezas do mundo dentro de si. Estava correcto sabia ele. Era assim que tinha de ser. Era assim que queria ser.

E ela chegou e afundou o mundo dele. As certezas tornara-se incertezas e todos os dias se interrogava sobre o mais correcto a fazer. Mas deixar-se ir? Jamais. Nunca se deixaria ir, mesmo entre dúvidas e incertezas, interrogações e pior, ameaços de totais entregas sentimentais.

Um dia, entre copos e cigarros perdeu a compostura. Encostou-a contra a parede, beijou-a e abraçou-a. Agarrou a mão dela e elogiou-a. Disse-lhe o quanto ela era perfeita e o quanto a amava hoje e todos os dias. Disse-lhe que queria ficar com ela hoje e todos os dias. E que queria deixar-se ir com ela, só com ela. Deixaram-se ambos ir e dormiram abraçados.


No dia seguinte ela queria mais, mas ele acordara novamente egocêntrico, firme e sobretudo com todas as certezas de que jamais se deixaria ir novamente.

Ela saiu e ele chorou.

Tinha-se deixado ir, e tinha sido demasisadamente feliz. E agora?

sábado, dezembro 11, 2010

Talking online (1)

Em conversas normais, e entre desabafos ele disse-lhe:

- Esta és tu. Assim como estás agora, a viver tanto esse sentimento. Não és aquela que queria sair e viajar e conhecer e esquecer.

A principio rejeitou de imediato a ideia, respondendo de imediato que ele estava redondamente enganado. Mas minutos depois, pensava com receio nas palavras dele que ecoavam na sua cabeça. Será que a vontade de sair, divertir e viajar era algo que impunha a si própria mais que outra coisa para fingir que a sua vida era agora um pouco mais miserável? Ou será que ela apenas queria viver de sensações, tal como sempre? Seria ela assim, ou estaria já habituada a ser assim. Repensou e respondeu.

- Tens razão. Esta sou eu. Eu vivo deste sentimento e de todos os outros e deixo-me consumir intensamente por eles. Não sei se sou melhor ou pior pessoa por isso. Mais fácil ou mais dificil. Não me interessa. Estás errado também. Eu também quero viajar, quero conhecer e quero viver. Quero deixar-me também consumir por tudo o que isso me possa trazer. Porque eu sou assim na realidade. Sempre com sede de viver, de sentir. Esta sou eu, a embalar-me em todas as sensações de cada momento. Sou eu.

- Ainda bem que assim é. - disse ele.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

quarta-feira, dezembro 01, 2010

voo azul-laranja-amarelado


Não posso ter medo. Está tudo bem. Vai correr tudo bem. Calma... 1,2,3,4,5,6,7,8,9... 10... (pensava). Por algum motivo achou que o facto de estar perto da janela a acalmava, talvez por pensar que seria o único contacto que tinha com o mundo lá fora. Como é suposto, para se preparar para levantar voo, apertou o sinto e ouviu atentamente as instruções que os hospedeiros de bordo davam. Estava nervosa. Sentia cada poro seu a falar com todo o seu corpo. Sentia suores quentes e frios que iam e vinham e se enrolavam na sua respoiração ofegante que temia em acompanhr o tremer das suas pernas. Ouve com atenção. Sem pânico. Calma. Está tudo bem. Vais chegar bem.
Insititiu que o seu medo pelos aviões jamais seria um impedimento para conhecer o mundo.. Conheceu tanto de carro, mas chegara a hora de entrar num outro universo e isso exigia o tão temido.. avião.
Enquanto insistia em permanecer com os pensamentos de auto-ajuda na sua cabeça, porque acreditava nas suas próprias palavras, ia através da janela vendo a pista desaparecer. Chegara a hora: em minutos passou a ver a pista por inteiro, depois o aeroporto, depois alguns prédios em redor, os carros e depressa a sua cidade por inteiro, e os carros (como se fossem de brincar). Por minutos deixou-se encantar por aquela maravilhosa imagem da sua cidade, como se fosse um puzzle, uma cidade para os pequeninos. E subitamente lembrou-se que poderia não pisar aquele chão de novo. O pânico resolveu reaparecer, e os suores, e os tremores, e os receios, e a respiração nervosa e ofegante, e as palpitações que agora aumentavam em fracções de segundos.. E subitamente avistou algo maravilhoso.. as nuvens! Ficou fascinada com a possível textura que elas aparentavam ter, fofas, macias. Apetecia-lhe saltar para lá..tal como uma criança pula em cima da cama dos pais, e salta ,e rebola, como se não houvesse amanhã.
O céu tinha vários tons de laranja e azul e amarelo. Tinha um ar de mistério, e as nuvens não terminavam.. E ela envolvia-se nas várias tonalidades e deixava que a sua mente viajasse agora para uma realidade mais antiga. E lembrava-se de como gostava de brincar com a sua irmã, de como gargalhavam tardes inteiras até perder o fôlego. Ela tinha a certeza que ali, saltitariam de nuvem para nuvem, e que nunca chegariam a estado de exaustão. Lembrava-se que como gostavam de uma boa luta de almofadas.. e as penas iriam sobrevoar todo aquele cenário divinal e cair em cada nuvem que a rodeava. E tudo seria branco, e azul, com laranjas e amarelos raiados.

Chegara ao destino. Estava feliz e tranquila. O corpo havia atingido uma temperatura regular, as pernas estavam seguras e respondiam aos comandos do cérebro, os batimentos haviam estabilizado, a respiração estava pausada, e os receios eram agora sonhos e recordações da paz que sempre teve. E tinha agora. Estava em paz, em terreno novo, pronta para voar por lá, só mais um bocadinho.