domingo, outubro 24, 2010

Eu, Tu, Ela e Ele. Nós.

Fiquei não sei quanto tempo ali, de olhos fechados apenas a sentir a brisa que teimava em acompanhar o pôr do sol. Fiquei encostada ao teu ombro enquanto lias um livro, mais um livro. Quando de minutos a minutos abria um pouquinho os olhos via-os sempre ali, os dois a brincar. Ele sempre como tu, e ela sempre como eu. É impressionante como os olhos verdes dele tão teus, têm a tua expressividade. Ele é teu, é meu, é nosso. E ela sempre tão princesinha e delicada e sempre tão vivaça. Cabelos claros como os meus, e os teus, os nossos. Ela é minha, e tua,é nossa. E nós temo-nos um ao outro passados estes poucos (muitos) anos. Eu a ti. E tu a mim. Sempre. Na nossa casa, na nossa cama. E aqui, à beira do nosso lago. Onde eles chapinham na água e gritam pelos campos. E somos tão felizes, não somos amor?
E tu dás-me um beijo suave nos lábios a vais brincar com eles. E sorris para mim como que a chamar-me "anda amor, anda". E eu sorrio de volta como que a dizer "deixa-me ficar só mais um pouco a ver-vos". E oiço as garganhas da nossa menina, que teima em trepar as tuas costas e subir até aos teus ombros. Tão pequena e tão traquina. Que carga de trabalhos vai ser esta miúda! E ele tão defensor e tão senhor de si, a tentar puxá-la para baixo e a dizer para que ela tivesse cuidado para nao se magoar. E veio pegar no meu braço e puxar-me até vocês. "Anda mãe, anda". E tu continuavas a chamar-me com o teu olhar caloroso e o teu sorriso rasgado "anda amor, anda."
E eu fui e envolvi-me contigo na brincadeira dos pequenos que é tão deles e tão nossa.

No final do dia regressámos ao quente do nosso lar, de mãos dadas, os quatro. Eu, Tu, Ela e Ele. Nós.

sábado, outubro 09, 2010

A última carta.


Porquê? Continuo a não entender o porquê.. E penso e repenso... E penso sobretudo que poderia ter estado perto de ti. Mais perto de ti. Como dantes lembraste?
Hoje enquanto todos te velavam e te acompanhavam as lágrimas caiam pelo meu rosto e paravam no canto dos meus lábios que sorriam. Entre a revolta de saber que tinhas desistido e a angústia de te imaginar tremendamente desamparada e desesperada, sorria ao lembrar-te e ao lembrar-nos.

Tenho ao meu lado duas fotos nossas. Uma daquela época lembraste? Quando não eramos capazes de passar um dia sem a outra. Se o destino nos colocara em escolas diferentes nós tratavamos de aproveitar bem o tempo juntas: a hora do almoço, a tarde inteira, e quando a noite (por ser véspera de mais um dia de escola) não o permitia escreviamo-nos (por carta e não por msn ou e-mail) e falavámos sobre todos os assuntos que já haviamos falado. Porque não se esgotava, tinhamos sempre algo a dizer e no dia seguinte entregavamos as cartas e prometiamos só ler quando chegassemos cada uma a sua casa.
Lembro-me que me davas na cabeça porque eu amava demais e não sabia como fazer com que disso resultasse um amor retribuido. Eramos apenas duas adolescentes e tu eras meio mãe.
Lembro-me de me ensinares a maquilhar-me: primeiro o creme, depois a base (que compraste comigo) e depois o resto, as sombras o risco.
Lembro-me quando ouviamos vezes sem conta as músicas da Mafalda Veiga e corriamos para ver todos os concertos e choravamos a ouvir a "Cada Lugar Teu" abraçadas.
Lembro-me das tuas gargalhadas.
Lembro-me do teu olhar meigo.
Lembro-me que nem sempre concordava com as tuas atitudes e te achava demasiadamente impulsiva. E lembro-me que isso nos afastou, e nos distanciou.
Lembro-me que me deixei de identificar com o mundo que tinhamos e criei um novo. Lembro-me que sempre que estavamos juntas era como se o ontem fosse o há 6 anos atrás. O teu olhar ainda brilhava e ainda tinhas um carinho para mim ,sempre.

Sabes o que me lembro mais de tudo? O nosso sonho de publicar o livro. O tal livro. O nosso livro: das nossas cartas e dos nossos desejos e dos nossos devaneios. Lembro-me sempre do título "Para sempre é muito tempo..."

E foi querida. Para ti, por qualquer motivo (que não consigo compreender) foi. E será essa a minha homenagem. Um dia publicarei um livro com esse título. Para ti.

E hoje escrevo-te para me despedir. Para te dizer que estou destroçada e que procurarei eternamente um porquê para justificar, para te justificar.
Ficarei a lembrar-te para sempre, todos os dias. Porque em mim guardo um lugar só teu.

Descansa em paz querida.